domingo, 10 de março de 2013

EM CACHOEIRA/BAHIA

A MINHA HERANÇA
Por Róbson Motta do Val
   Trineto do saudoso jornalista cachoeirano Augusto Ferreira Motta 

Não é difícil pra mim, discorrer sobre a vida e a personalidade de Augusto Ferreira Motta. Assim que tomei conhecimento de algumas das façanhas perpetradas pelo meu trisavô, inicialmente através do meu primo, o historiador e arquiteto Francisco Senna, fiquei fascinado e me debrucei em estudos profundos sobre a sua figura. Passei horas a fio no arquivo público de Cachoeira revirando jornais e documentos antigos, em busca de pistas que revelassem um pouco mais sobre o seu caráter e suas ações.
Estranhamente acabei me encontrando em muitas das características dele. Assim como meu trisavô, também enveredei pela senda do jornalismo, só para citar uma das muitas semelhanças que descobri entre nós. Lendo os textos que ele escreveu há mais de cem anos, é comum me pegar pensando – Eu escreveria exatamente isso se estivesse na mesma situação. É claro que sou consciente de que não realizei metade do que ele produziu no pouco tempo que teve de vida; nem em quantidade nem em importância, mas não posso disfarçar uma pontinha de vaidade por ter o sangue de Augusto Motta correndo em minhas veias. Mas deixemos de lado o meu legado hereditário e falemos um pouco sobre a história desse cidadão de Cachoeira.
Augusto não foi imperador da Roma Antiga como o seu homônimo que viveu na Europa vários séculos antes dele, mas foi, sem dúvida, um dos grandes guerreiros da liberdade no território da Roma Negra, região de limites incertos, apenas presumíveis, encravada bem no coração do Novo Mundo, palco de grandes lutas e ebulições, caldeirão das raças que formaram a Terra Brasílis. Augusto, se não tivesse nascido homem, teria sido um cometa. Em sua curta existência, de menos de três décadas, usou e abusou da virtude da dignidade. O órfão que com pouquíssimos recursos fundou um jornal aos dezesseis anos de idade para poder denunciar as injustiças e os desmandos praticados em sua época, era sempre um dos melhores guerreiros quando a causa era a liberdade. 
Aventureiro valoroso combatia corajosamente os coronéis prepotentes que sufocavam as aspirações mais legítimas do povo. Homem de poucas palavras quando falava; texto cortante e objetivo quando escrevia. Difícil no trato tinha poucos e bons amigos. Pai de muitos filhos ainda muito moço. Marido dedicado. Riu do moralismo hipócrita da burguesia da época, da falsa nobreza dos engenhos. Defendeu as artes e o progresso e amou a natureza. À noite, quando terminava de imprimir mais uma edição do jornal, liberava os funcionários e fazia entrar na gráfica o povo pobre de pés descalços. Aí então era o professor Augusto que entrava em cena: magnífico, entusiasmado, com seus olhos brilhantes e agudos de ave de rapina, educando, ensinando o b a ba e as voltas que o mundo dá. Abrindo, naquelas mentes maltratadas, janelas para novos horizontes. Espantando a submissão, varrendo pra bem longe o sentimento de inferioridade daquelas almas, insuflando, agitando, subvertendo a ordem injusta da sociedade.
No meio dos negros e dos pobres era respeitado porque respeitava, numa época em que normal eram o preconceito e a discriminação. Cético, como todos que se habituaram desde cedo aos rigores da vida e do espírito, nem por isso deixava de ter um respeito profundo pelo cristianismo, nem pelos ritos religiosos de origem africana. Foi parceiro de luta de figuras proeminentes, como o maestro Tranquilino Bastos, o engenheiro e jornalista Silio Boccanera, Cincinato Franca e outras almas ilustres que compartilharam dos seus ideais de justiça social.
Augusto, embora encarnando o mito do herói, foi um homem de carne e osso. Amou a família e a sua cidade, escreveu muitos artigos que sacudiram as estruturas do poder reinante, engendrou uma prole numerosa e libertou muita gente das correntes de ferro e das trevas da ignorância. Depois? Depois foi embora desse mundo, sem a menor cerimônia, quando todos menos esperavam, exatamente como fez o seu contemporâneo Castro Alves. A casa onde ele morou e onde funcionou o jornal, está lá até hoje na praça principal da histórica cidade de Cachoeira. Uma escola municipal que ensina crianças pobres tem o nome dele e fica em frente ao cemitério. A Câmara de Vereadores guarda nos seus arquivos alguns registros daquele vereador sem partido que um dia ocupou uma das cadeiras do plenário e incendiou a tribuna com seus discursos. O arquivo público da cidade ainda conserva alguns poucos exemplares do jornal que ele criou e dirigiu.
Augusto caberia perfeitamente no mundo de hoje, onde os desmandos e as injustiças prosseguem campeando. Continua faltando gente que saiba enfrentar com força e sabedoria os vampiros do povo, essas bestas preconceituosas que viram as costas pra miséria. Falta quem deboche da pose dos poderosos e puxe o tapete dos oportunistas que ocupam os cargos mais importantes da nação. Augusto era tudo isso: um brasileiro que morreu lutando. Se não teve grandes glórias, teve o que sempre quis: nobreza e dignidade suficientes para não assistir de braços cruzados, como um pequeno fantoche, ao espetáculo dramático da vida que se desenrolava à sua volta. Foi, ao mesmo tempo, autor e ator da sua lenda.

 Nota da Redação: O Jornal sobre o qual o autor do artigo se refere é O Guarany.










5 comentários:

  1. De: Robson do Val
    Para: Professor Pedro Borges

    Identifiquei um erro na primeira linha do texto que foi publicado acima com a minha assinatura. Logo na primeira linha está escrito:" Não é dificil pra EU discorrer" quando o correto seria ! Não é dificil para mim, discorrer..." como está no original que enviei para a redação deste jornal. O pronome "mim" está relacionanado à parte inicial da citação:
    Algo não é difícil pra MIM, e não pra EU. Seria diferente se eu tivesse começado a frase dizendo apenas: Para MIM discorrer. Aí estaria errado, e o correto seria Para EU discorrer.
    Sendo assim, gostaria que fosse mantido o texto original que enviei. Grato.

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  2. Caro Robson,
    Já procedi à correção, conforme sua manifestação, todavia, entendo ser útil dizer-lhe o seguinte: Sou professor desde os anos da segunda metade do século passado. Era bem jovem quando comecei. Já se vão 52 anos de experiência no ramo. Sei muito pouco ainda. Uns dizem que “morrendo e aprendendo”. Eu digo: vivendo e aprendendo. Embora surpreso, confesso-lhe que acatei a manifestação do seu raciocínio quanto ao emprego de “mim ou eu”.
    Nunca ensinei assim aos meus alunos, pois aprendi e ensino que não se usam pronomes oblíquos tônicos antes de verbos no infinitivo.
    Recentemente, procedendo à correção de um texto, a pedido de uma colega que não é da área da língua Portuguesa, fiz observação sobre uma frase em cuja estrutura o autor assim se expressou: “escutei o rádio a manhã inteira”. A frase corrigida por mim, ficou assim: “escutei ao rádio a manhã inteira”, com integral domínio do que aprendi e ensino aos meus alunos sobre regência verbal. Meu filho, atual diretor geral do Colégio Estadual da Cachoeira, que também é professor de Português e Inglês, graduado em Letras, pós-graduado em Lingüística, mestrando em Lingüística Textual, pela UFBA, disse-me, eu já sabia, que quaisquer manifestações lingüísticas, segunda esta ciência da linguagem, estão corretas.
    Embora seja difícil para eu usar as mesmas expressões, devido a força do hábito, não faço, mas acato a liberdade de expressão em toda sua dimensão.
    Agora veja o que diz um dos mais abalizados professores de língua Portuguesa do Brasil, o Prof. Pasquale Neto:
    Eu ou Mim?

    Banalização do Pronome Oblíquo Mim
    Muitas pessoas condenam o pronome mim por acharem-no incorreto ou inculto. O pronome mim faz parte dos pronomes dos oblíquos tônicos, são eles: mim, ti, si, ele (a), nós, vós, eles (as).
    Para se ter idéia, não há a menor necessidade em inibir o pronome mim antes de verbos como custar, bastar, faltar e restar, pois estes verbos exigem a preposição “a”. Desta forma, mesmo que estes verbos estejam à frente do pronome mim, o seu emprego é correto, uma vez que o pronome mim não será sujeito destes verbos.
    Uma forma de julgar se o emprego de “mim” é ou não correto, pergunta-se à frase “quem ou o quê”, achando assim o sujeito. Depois, é só verificar se na resposta não o aparecer, pois se aparecer não deverá ser empregado, pois “mim” não pode ser sujeito de uma oração.
    Portanto, em casos como estes, devemos empregar o pronome tônico do caso reto “eu”, ou seja, empregá-lo sempre que for sujeito de um verbo.
    De uma forma geral, não utilize mim quando for sujeito de um verbo no infinitivo, ou seja, em verbos terminados em ar, er ou ir.
    Para entender melhor, atente para as situações expostas a seguir:
    Só saia daqui quando mim disser. Neste caso, perguntamos “quem” e, como resposta, teremos “mim”, ou seja, um pronome oblíquo tônico sendo o sujeito do verbo dizer, ou seja, colocação pronominal incorreta.
    Só saia daqui quando eu disser. Neste caso, ao perguntarmos “quem”, teremos como resposta, o pronome “eu”, colocação pronominal correta.
    Para facilitar, dobre a atenção quando aparecer verbos de ligação (ser, estar, parecer, ficar, permanecer, continuar) e os verbos que acabamos de ver, e empregue o pronome “mim” sem receio. Nos demais casos, porém, antes de verbos no infinitivo, emprego o pronome pessoal
    Outra dica é perceber se o pronome mim vem acompanhado de preposição, pois como todos os pronomes oblíquos tônicos, o mim não é diferente, deve obrigatoriamente ser acompanhado de preposição.
    Ora, esta é a grande diferença entre o mim e o eu, o eu como sujeito nunca tem preposição, ao contrário de pronomes como o “mim” que sempre são acompanhados por a, para, de e com.

    Cordial e atenciosamente,


    Pedro Borges dos Anjos

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  3. O autor do artigo está equivocado. Não se separa o sujeito do verbo. Neste caso, o sujeito do período composto "Não é difícil pra mim, discorrer sobre a vida e a personalidade de Augusto Ferreira Motta" é a primeira oração nominal "Não é difícil para..." A vírgula ali deixa a segunda oração incompleta. O verbo no infinitivo não pode ser precedido pelo pronome obliquo "mim". È só perguntar "quem" não é dificil discorrer sobre...? É claro que a resposta é "eu" e não "mim."

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  4. O sujeito da oração é "eu", isto é, "Não é difícil para eu discorrer..." A vírgula desfigurou ainda mais a formalidade da oração. É que de algum tempo para cá, jornalistas não mais atentam para a gravidade de não se estudar a gramática da língua Portuguesa para aplicá-la em seus textos. Antes, conforme o texto constava no blog, não havia erro. O autor comentou, o editor inteligentemente, contra-argumentou, sustentando que a correção feita no original procedia, mas atendia o que o autor lhe exigia, citando a liberdade de expressão, mesmo que esta rompa com as normas cultas da língua. E fez o que o autor reclamou. Mas o autor não tem razão!

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  5. O Prof. Pedro Borges fez a correção, mas disse ao autor Robson do Val que "Não é difícil para mim, discorrer...." é errado. Preste atenção, jornalista Robson, com ou sem vírgula, a sua frase está errada. Já li neste blog, não me recordo em que matéria, o Prof. Pedro Borges dizendo que "em suas ações é bom que o homem não erre, mas caso erre o pior é que não se corrija." Eu acho que o senhor, Sr. Robson, ainda tem tempo de reparar o seu erro. Faça logo antes que a notícia se amplie.
    Jorge Vicente da Silva, professor de português/Belo Horizonte/MG

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