Não chores por mim, Argentina
Uma pesquisa de votos mostra um fenômeno notável: o falecido presidente
venezuelano tem uma imagem altamente positiva em seu país e quase
exatamente a mesma em nosso. O eixo binacional, as ideias
compartilhadas.
Raúl Kollmann
Raúl Kollmann

Seis a cada dez argentinos tem uma opinião
positiva do falecido Hugo Chavéz. Mas, o impressionante é que essa
proporção é quase idêntica ao registrado na Venezuela, onde, também,
mais de seis a cada dez venezuelanos opinam bem ou muito bem do líder
boliviano. Portanto, tanto lá quanto aqui existe o consenso de que se
deve seguir o modelo e rumo traçado por Chavéz. O que, obviamente, tem
um peso decisivo na Venezuela, onde haverá eleições em 14 de abril: tudo
indica que Nicolás Maduro, indicado pelo próprio Chavéz como seu
sucessor, inicia com uma enorme vantagem. Quase 60% da população votaria
nele, contra apenas 30% que apoia a oposição. O que também é
perceptível é o eixo entre Brasil, Argentina e Venezuela que se mantém
como fonte de liderança na America Latina.
As conclusões partem de uma pesquisa
realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP) conduzida
pelo sociólogo Roberto Bacman. Foram entrevistadas 800 pessoas na
Argentina e 500 na Venezuela, sendo todas entrevistas telefônicas. No
nosso país, o estudo abrangeu aos cidadãos da Capital Federal, entre a
Grande Buenos Aires e a Grande Mendonza, a Grande Rosario, Córdoba,
Tucumán, Salta e as cidades de Neuquén, Catamarca, Chaco e o interior do
estado de Buenos Aires. Na Venezuela, foram entrevistadas quinze
cidades, entre elas Caracas, Maracaibo, Barinas, Barquisimeto, Puerto
Ordaz, Barcelona e Valencia. O trabalho foi concluído neste sábado, em
termos técnicos, as perguntas foram formuladas de modo espelho, ou seja,
idênticas lá e aqui.
Duelo e ideáis
A morte de Chavéz foi um impacto enorme na
Venezuela, mas também na Argentina. Como já havia sido sinalizado muitas
vezes, esse impacto não é apenas um luto compartilhado, um
embelezamento do personagem perante a morte, mas se baseia na enorme
mobilização que está surgindo. O cidadão comum enxerga apenas a adesão, a
imensa fila para a ultima despedida, a quantidade de jovens que
participam e fica impressionado com o fenômeno que não se vê todo dia.
Na Argentina, Chavéz não tem apenas uma imagem altamente positiva, mas
três de cada quatro pessoas (75,6%) dizem que “ele foi um grande
transformador da realidade venezuelana e alcançou os setores mais
desfavorecidos levando acesso a novos direitos”. O que faz contraste com
a imagem política de ditador que pretendia se instalar em boa parte da
política direita e midiática argentina.
Mas a isso se soma o fato de que hoje existe
certo consenso na America Latina, em especial na Venezuela e Argentina,
referente a valores presentes tanto em Hugo Chavéz quanto a Cristina
Fernández de Kirchner: o papel preponderante do Estado, auxilio para os
setores humildes, busca da unidade latino americana. Fator que explica
que não apenas Hugo Chavéz tem uma imagem altamente positiva na
Venezuela e Argentina, como também Cristina F. Kirchner. A Presidente
vem recuperando a imagem positiva nos últimos meses, que é perceptível
quando se pergunta quanto a sua gestão no governo.
“De todas as formas há um fator importante –
indica Bacman–. Hoje a Presidente tem entre 36% e 38% de apoio
incondicional, pessoas que votaria nela com certeza. É o que chamamos de
núcleo duro do kirchnerismo. Mas nas pesquisas, as opiniões favoráveis a
Chavéz, Cristina e, principalmente, Nestor Kirchner, vão muito além dos
eleitores. Eu creio que existe um reconhecimento aos lideres que
brigam, jogam por seus países, mesmo perdendo a vida, como no caso do
boliviano, natural de Santa Cruz, ‘eu não voto neles, mas os respeito’. A
altíssima imagem positiva de Nestor se mantém estável desde sua morte.”
A imagem
“O respeito da Cristina em si mesma, não
apenas nós do CEOP, registramos o crescimento de sua imagem no ultimo
mês, diz Bacman. Outras consultoras também registraram, acredito que é
pelo esforço que está fazendo a fim de combater a inflação. A ideia do
congelamento, resistida por alguns especialistas, parece funcionar.
Ainda se agrega que a oposição continua em um caminho difícil, sem rumo.
Recorrendo a lideranças, alianças que tem muito mais imagem eleitoral
do que consistência nas ideias”.
“Não medimos diretamente a intenção de votos
na Venezuela, pois nos parecia prematuro – explica o responsável do CEOP
– ainda não estão listados todos candidatos, especialmente os da
oposição. Não está claro se Henrique Caprilles se juntará aos que estão
contra ao chavismo. Mas que Nicolás Maduro tem o apoio inicial de 57%,
sendo que ainda há 10% de indecisos, permite pensar que obterá um
triunfo nítido.que será um acontecimento não apenas de época, mas épico,
e poderá obter mais votos que até mesmo o próprio Hugo Chavéz, obteve
em outubro, que foi por volta de 55%. Deve-se levar em conta que as
eleições estão, em termos técnicos, em curtíssimo prazo, com pouco mais
de um mês. Ou seja, não há tempo para se instalar climas muito
distintos dos atuais, ainda assim, deve-se considerar que Chavéz ganhou
as eleições em outubro, mas depois houve nova eleição referente aos
governadores, a qual o chavismo alcançou o recorde de 20 dos 23 governos
em jogo.”
“Também o pouco tempo de campanha até 14 de
abril parece não dar lugar a controvérsias da decisão venezuelana, em
que, deixou claríssimo o mandato do falecido líder, que de forma
explicita disse ‘se me acontecer algo, votem no Maduro’. Coincidindo ao
que dizem os venezuelanos, também na Argentina, Maduro registra um apoio
similar. O povo quer que se mantenha o rumo, porque entende que lá e
aqui estão em sintonia e que existe cooperação mutua.”
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