domingo, 17 de março de 2013

Não chores por mim, Argentina
Uma pesquisa de votos mostra um fenômeno notável: o falecido presidente venezuelano tem uma imagem altamente positiva em seu país e quase exatamente a mesma em nosso. O eixo binacional, as ideias compartilhadas.

Raúl Kollmann
Seis a cada dez argentinos tem uma opinião positiva do falecido Hugo Chavéz. Mas, o impressionante é que essa proporção é quase idêntica ao registrado na Venezuela, onde, também, mais de seis a cada dez venezuelanos opinam bem ou muito bem do líder boliviano. Portanto, tanto lá quanto aqui existe o consenso de que se deve seguir o modelo e rumo traçado por Chavéz. O que, obviamente, tem um peso decisivo na Venezuela, onde haverá eleições em 14 de abril: tudo indica que Nicolás Maduro, indicado pelo próprio Chavéz como seu sucessor, inicia com uma enorme vantagem. Quase 60% da população votaria nele, contra apenas 30% que apoia a oposição. O que também é perceptível é o eixo entre Brasil, Argentina e Venezuela que se mantém como fonte de liderança na America Latina.
As conclusões partem de uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP) conduzida pelo sociólogo Roberto Bacman. Foram entrevistadas 800 pessoas na Argentina e 500 na Venezuela, sendo todas entrevistas telefônicas. No nosso país, o estudo abrangeu aos cidadãos da Capital Federal, entre a Grande Buenos Aires e a Grande Mendonza, a Grande Rosario, Córdoba, Tucumán, Salta e as cidades de Neuquén, Catamarca, Chaco e o interior do estado de Buenos Aires. Na Venezuela, foram entrevistadas quinze cidades, entre elas Caracas, Maracaibo, Barinas, Barquisimeto, Puerto Ordaz, Barcelona e Valencia. O trabalho foi concluído neste sábado, em termos técnicos, as perguntas foram formuladas de modo espelho, ou seja, idênticas lá e aqui.
Duelo e ideáis
A morte de Chavéz foi um impacto enorme na Venezuela, mas também na Argentina. Como já havia sido sinalizado muitas vezes, esse impacto não é apenas um luto compartilhado, um embelezamento do personagem perante a morte, mas se baseia na enorme mobilização que está surgindo. O cidadão comum enxerga apenas a adesão, a imensa fila para a ultima despedida, a quantidade de jovens que participam e fica impressionado com o fenômeno que não se vê todo dia. Na Argentina, Chavéz não tem apenas uma imagem altamente positiva, mas três de cada quatro pessoas (75,6%) dizem que “ele foi um grande transformador da realidade venezuelana e alcançou os setores mais desfavorecidos levando acesso a novos direitos”. O que faz contraste com a imagem política de ditador que pretendia se instalar em boa parte da política direita e midiática argentina.
Mas a isso se soma o fato de que hoje existe  certo consenso na America Latina, em especial na Venezuela e Argentina, referente a valores presentes tanto em Hugo Chavéz quanto a Cristina Fernández de Kirchner: o papel preponderante do Estado, auxilio para os setores humildes, busca da unidade latino americana. Fator que explica que não apenas Hugo Chavéz tem uma imagem altamente positiva na Venezuela e Argentina, como também Cristina F. Kirchner. A Presidente vem recuperando a imagem positiva nos últimos meses, que é perceptível quando se pergunta quanto a sua gestão no governo.
“De todas as formas há um fator importante – indica Bacman–. Hoje a Presidente tem entre 36% e 38% de apoio incondicional, pessoas que votaria nela com certeza. É o que chamamos de núcleo duro do kirchnerismo. Mas nas pesquisas, as opiniões favoráveis a Chavéz, Cristina e, principalmente, Nestor Kirchner, vão muito além dos eleitores. Eu creio que existe um reconhecimento aos lideres que brigam, jogam por seus países, mesmo perdendo a vida, como no caso do boliviano, natural de Santa Cruz, ‘eu não voto neles, mas os respeito’. A altíssima imagem positiva de Nestor se mantém estável desde sua morte.”
A imagem
“O respeito da Cristina em si mesma, não apenas nós do CEOP, registramos o crescimento de sua imagem no ultimo mês, diz Bacman. Outras consultoras também registraram, acredito que é pelo esforço que está fazendo a fim de combater a inflação. A ideia do congelamento, resistida por alguns especialistas, parece funcionar. Ainda se agrega que a oposição continua em um caminho difícil, sem rumo. Recorrendo a lideranças, alianças que tem muito mais imagem eleitoral do que consistência nas ideias”.
“Não medimos diretamente a intenção de votos na Venezuela, pois nos parecia prematuro – explica o responsável do CEOP – ainda não estão listados todos candidatos, especialmente os da oposição. Não está claro se Henrique Caprilles se juntará aos que estão contra ao chavismo. Mas que Nicolás Maduro tem o apoio inicial de 57%, sendo que ainda há 10% de indecisos, permite pensar que obterá um triunfo nítido.que será um acontecimento não apenas de época, mas épico, e poderá obter mais votos que até mesmo o próprio Hugo Chavéz, obteve em outubro, que foi por volta de 55%. Deve-se levar em conta que as eleições estão, em termos técnicos,  em curtíssimo prazo, com pouco mais de um mês. Ou seja, não há tempo para se instalar climas muito distintos dos atuais, ainda assim, deve-se considerar que Chavéz ganhou as eleições em outubro, mas depois houve nova eleição referente aos governadores, a qual o chavismo alcançou o recorde de 20 dos 23 governos em jogo.”
“Também o pouco tempo de campanha até 14 de abril parece não dar lugar a controvérsias da decisão venezuelana, em que, deixou claríssimo o mandato do falecido líder, que de forma explicita disse ‘se me acontecer algo, votem no Maduro’. Coincidindo ao que dizem os venezuelanos, também na Argentina, Maduro registra um apoio similar. O povo quer que se mantenha o rumo, porque entende que lá e aqui estão em sintonia e que existe cooperação mutua.”

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