domingo, 1 de abril de 2012

ACONTECEU NA CIDADE HISTÓRICA DA CACHOEIRA/BAHIA:LEMBRANÇAS

O DIA DA MENTIRA
Por Erivaldo Brito

A MODERNA ENCICLOPÉDIA eletrônica Wikipédia, nos sugere que, o “dia da mentira” ou “dia do tolo” nasceu no Ano Novo do século dezesseis que começava no dia 25 de março – início da primavera por lá -, e durava até o dia 1º de abril. Aconteceu que, no ano de 1564, o Papa Gregório XIII promulgou um calendário de origem européia, substituindo o calendário Juliano usado, e, acabou passando à história tendo o seu nome incluído no novo anuário, o Calendário Gregoriano até hoje utilizado.

O rei Carlos IX determinou a mudança imediata dos tradicionais festejos de fim do ano e início do novo ano para o dia 1º de janeiro. Você, meu amigo, deve estar pensando o óbvio: mexer com tradição não é brincadeira não. Alguns focos de resistência, na sociedade, se fizeram sentir, todavia, os tradicionalistas acabaram sendo vencidos, pois eram ridicularizados com convites para festas que jamais se realizariam no dia 1º de abril. Foi assim que a brincadeira inocente do 1º de abril ganhou o mundo. Nos países de língua inglesa o dia ficou conhecido como april fool`s day, na Itália pesce d´aprile, e, na França, poisson d´avril.

No Brasil, pais de pândegos, já em 1501 os nossos avós silvícolas pregaram a maior peça, dizendo que só havia ouro na faixa de terreno a beira mar, fazendo com que os portugueses se arrastassem durante anos pelo litoral brasileiro.

O primeiro “dia da mentira” oficialmente comprovado no Brasil aconteceu em 1º de abril de 1828 através de um jornal mineiro que trazia a notícia bombástica do falecimento de D.Pedro! O nome do jornal não poderia ser outro: “A Mentira”. E todo mundo acreditou na notícia!

As tradicionais brincadeiras perderam qualquer graça depois de 1964 quando do golpe militar ocorrido no dia 1º de abril e que os militares recuaram para 31 de março. Hoje quase ninguém pratica mais a brincadeira de fazer de bobo um vizinho, um parente, o colega de trabalho, usando o que era a mais sofisticada tecnologia, o telefone, usado para “passar trote”.

No meu livro “Gente Pagodeira”, fiz o registro de um caso verídico que a tradição oral dos antigos manteve viva durante anos a fio. O dia 1º de abril tornara-se, no meio da patuleia, uma grosseria, uma galhofa, uma baderna, coisas que caracterizavam as tendas de barbeiros, açougues e alfaiatarias.

Existia, por exemplo, na Rua 13 de Maio, uma alfaiataria conceituadíssima em toda a região, cujo proprietário, o mestre Silvino era conhecido como contador de piadas de Bocage, gozador, tirador de onda com a cara dos outros. Ele havia preparado uma pegadinha que iria fazer sucesso. Juntamente com alguns auxiliares, pregou na calçada bem em frente da oficina, uma moeda de dois vinténs e ficaram aguardando a vinda do primeiro trouxa.

Rapaz, não demorou muito e surgiu além do horizonte a figura de inconfundível elegância trajando fraque, bengala e chapéu cartola. Era nada mais nada menos do que o Dr.Servílio Mario da Silva, Intendente Municipal (prefeito), no período de 1904 a 1907. Além de doutor, o homem era culto, o que fazia a diferença, porque ainda hoje existe muito doutor burro. Como disse o poeta Noel Rosa, “inteligência não se aprende no colégio”.

O Dr.Servílio criou a primeira biblioteca pública do município, adorava tertúlia literárias, seu livro de cabeceira era Camões, os saraus na casa dos Miltons, e era adepto do charadísmo, uma espécie de enigma para os cultores do vernáculo, que consistia em compor uma palavra dividindo-as por sílabas, acrescendo uma alusão no significado da palavra inteira.

Então, amados, o Dr.Servílio foi-se aproximando da “armadilha”. O mestre proprietário da alfaiataria e o restante dos oficiais e ajudantes naquele suspense. Silvino, coitado, apelou para Nossa Senhora do Rosário:

- Minha Mãe Santíssima, não permita que o homem veja a moeda!

E como todo bom baiano, embolou o meio de campo, apelando para os Orixás. Os Orixás da Cachoeira, - meu amigo Cacau Nascimento sabe disso -, por vezes também gostam de brincadeira. Exatamente na hora que o Dr.Servílio ia passando, o sol que estava escondido sob nuvens de repente se abriu, a moeda reluziu, o doutor não resistiu e Silvino pensou "puta que pariu!"

Partiu para evitar o já inevitável gritando:

- Ta pregada, doutor, ta pregada!

Mas não houve jeito de controlar os capitães de areia que começaram a rir e a gritar:

- Primeiro de abril! Primeiro de abril!

Silvino, com a voz trêmula, prometia meio sem graça:

- Eu não brinco mais, doutor!

Dizem que ele cumpriu fielmente o prometido.

Para encerrar, uma frase para a sua reflexão do grande Millor Fernandes, recentemente falecido:

“O que é pior: a chamada mentira piedosa ou a verdade cruel?”

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