O jornalista, a versão e os
fatos
Pedro Borges dos Anjos
Editor-Chefe do Jornal O Guarany
A vida particular,
entretanto, ganha importância caso o namoro do governador, do senador, do
presidente, do prefeito, do vereador, etc., interfira na administração pública.
Ou porque a autoridade esqueça de
cumprir com suas obrigações, seus afazeres, ou porque emprega parentes e amigos
de sua amante. Foi o caso do ex-governador ACM, o qual manteve relacionamento
adúltero com a jovem advogada Adriana Barreto, anos sucessivos, o período mais
desgastante para uma pessoa em sua posição. Senador da República, final do ano
2000, ACM já se dava ao luxo de jantar à luz de velas na residência do
desembargador Amadiz Barreto, acompanhado da filha e dos pais dela. Quando
estourou a crise no Congresso Nacional, da violação do painel eletrônico, com a
revelação da gravação das fitas em fevereiro de 2001, ACM se refugiou em
Kingskey, em Miami, acompanhado da amante.
A história do senador
Antonio Carlos Magalhães com a advogada Adriana Barreto é contada por
políticos, socialites, jornalistas e amigos de Plácido Faria, advogado e
ex-marido dela. O Jornal A TARDE
entrevistou vários personagens que de alguma forma viveram, participaram das
influências desse relacionamento. Tudo começou em março de 1991, no primeiro
mês do terceiro governo de ACM.
Ela foi levada por
seu pai, Amadiz Barreto, numa manhã daquele mês, ao principal gabinete do
Desenbanco, na Avenida Tancredo Neves, onde funcionou a sede do governo baiano
até 1995.
O objetivo da visita
era conseguir um emprego para a garota de 19 anos, que estudou no Colégio
Maristas e agora era estudante de Direito na Universidade Católica do Salvador.
Advogado particular
das grandes causas de ACM, o futuro desembargador Amadiz Barreto não tinha
quaisquer dúvidas de que ali não faltaria trabalho para a filha. E não deu
outra. Ela foi ser estagiária, assim como Luís Eduardo Magalhães começou sua
carreira no setor público na década de 1970.
Era o começo de um
conto de fadas, que duraria uma década. Aliás, não só a dela, mas a de seu pai,
Amadiz Barreto. Professor universitário, o então advogado foi içado ao cargo de
desembargador pelo próprio Antonio Carlos Magalhães, em 1995, quando Paulo
Souto iniciava seu primeiro governo (1995-1998). Amadiz foi o advogado menos
votado na lista tríplice eleita por oito mil advogados para o cargo de
desembargador. O mais votado foi Thomas Bacellar, mas Souto escolheu o pai de
Adriana.
A amizade entre ACM e
Adriana Barreto era discreta nesse período de ascensão profissional de seu pai,
enquanto ACM governava a Bahia pela terceira vez, entre 1991 e 1994.
Morando na capital
baiana, o então governador não precisava se expor tanto. Ao se eleger para o
Senado Federal, a distância entre Brasília e a Bahia acabou causando efeito
inverso, ou seja, provocou maior aproximação entre ambos no espaço público.
Cada vez com maior freqüência, ACM e a amiga viajavam na primeira classe do
MD11 da Vasp entre Salvador e a capital federal no horário das 11 horas.
O fato causava grande
constrangimento ao filho Luís Eduardo Magalhães, que não escondia seu
desapontamento com amigos mais próximos. Mas ACM não dava ouvido a quem
desaprovava o affair adúltero. Tanto que, assim que Paulo Souto assumiu o
governo, contratou Adriana Barreto como assessora do seu gabinete. Já formada e
exercendo a advocacia, Adriana continuava sendo, porém, discreta entre as
pessoas próximas do senador. Exercia seu cargo ‘com competência’, dizia um
deputado que a admira. Segundo outro parlamentar, ela ‘pouco aparecia’ no emprego.
O importante para ACM
é que a amante estava sob sua vigilância, trabalhando na governadoria do
Estado. Luís Eduardo afirmou por diversas vezes para colegas e jornalistas,
pouco antes de morrer, que daria ‘um basta’ na situação quando assumisse o governo.
Morreu antes, em abril de 1998. Nesse ano, Adriana foi destaque pela primeira
vez na imprensa baiana. Apareceu num escândalo envolvendo cerca de 200
estudantes que conseguiram entrar na Faculdade de Direito da Universidade
Católica do Salvador sem prestar vestibular.
Eram filhos ou
parentes de desembargadores, juízes, deputados, prefeitos, vereadores,
secretários de Estado e do Município de Salvador, dentre outros, que
ingressaram em faculdades do Rio de Janeiro e, logo depois, conseguiram empregos
em órgãos públicos da Bahia para pleitear transferências para a Ucsal por meio
de liminares concedidas pela Justiça baiana. Adriana foi advogada de vários
estudantes. E conseguiu empregos para muitos deles na governadoria. Quando o
escândalo apareceu na imprensa, em setembro de 1998, o então governador César
Borges exonerou os apadrinhados.
O prefeito Antonio
Imbassahy demitiu a advogada Cristina Ruas, do setor jurídico da prefeitura,
que utilizava do mesmo expediente de Adriana. A filha do desembargador, ao
contrário de Ruas, saiu incólume no episódio. Mais que isso, foi condecorada
dois anos depois com a Ordem do Mérito pelo governo do Estado, ao lado dos
presidentes da Ford, BNDES, Monsanto e Embratur. A solenidade foi recheada de
constrangimentos para os políticos que procuravam explicar os méritos para
tamanha honraria concedida à jovem moça.
Um deputado perguntou
ao governador César Borges: ‘Mas Borges, por que você deu um título de
comendadora a essa garota?’. Sem esconder o riso sem graça, o governador apenas
respondeu: ‘O Vita (Fernando Vita, assessor de comunicação) trouxe o requerimento
com a proposta e disse que tinha de obedecer’. A verdade é que entre 1999 e
2001, ACM já não escondia Adriana de ninguém, ou quase ninguém. E se deixava
ser visto na sua companhia em restaurantes, shoppings, lojas e principalmente
em viagens pelo Brasil e exterior.
Ao lado de Saulo
Laranjeira, ex-sócio da construtora OAS, e do empresário João Carlos Di Gênio,
o casal viajou para Paris, Londres e New York diversas vezes, sempre na
primeira classe. Di Gênio bancava tudo. Dona Leila, mulher de Laranjeira, se
separou dele porque não aceitava que o marido participasse dessas turnês,
garante um dos deputados que acompanhou a vida do senador de perto neste
período. Entre os dias 16 e 22 de junho de 1999, por exemplo, foi realizada em
Lisboa (Portugal) a Conferência Ibero Americana. ACM fez-se acompanhar da
amante, apresentando-a ao amigo e senador Heráclito Fortes, que se disse
encantado com ela. Ao final da conferência, ACM e Adriana, acompanhados do
empresário Di Gênio, proprietário do Colégio Ângulo e da Universidade Paulista
- Unip, foram para Paris. Hospedara-se com ela no Hotel Crillon, no dia 23 de
junho de 1999, que fica na Plaza de La Concórdia. Na ‘cidade das luzes’,
almoçou e jantou em vários restaurantes, no qual encontrou e apresentou a amiga
a parlamentares, inclusive da Bahia.
Porto Seguro, no sul
do Estado, e São Paulo, também foram cidades visitadas por ACM e Adriana com
certa freqüência. Em Porto Seguro, ele ficava numa casa do Di Gênio, e na
capital paulista seu porto era a suíte presidencial do 21º andar do Maksoud
Plaza Hotel.
A gerência do hotel
disse para jornalistas, que só revelaria as datas de permanência do senador e
de sua amiga com autorização judicial. ‘Não posso abrir o arquivo e mostrar
isso indiscriminadamente’, disse o gerente, informando que as suítes
presidenciais do 21º andar custam R$ 4.420 a diária.
ACM freqüentava
também restaurantes e shoppings com Adriana em São Paulo, e muitas lojas caras,
a exemplo da Daslu, onde os preços de vestidos chegam a custar até R$ 20 mil. A
filha do governador Geraldo Alckmin trabalha nesta loja com salário de R$ 8
mil.
ACM não economizava
com as pessoas a quem queria bem. Seu ciúme podia ‘torná-lo uma fera’, como
frisa Plácido Faria, ex-marido de Adriana. Mas, a depender do caso, ele se retraia.
Quem experimentou uma
atitude de retração foi o deputado Arthur Maia, quando foi candidato a prefeito
de Salvador em 2000.
Maia o atacava
constantemente no horário eleitoral gratuito durante a campanha. ACM o retrucou
partindo para questões de ordem pessoal. O então candidato reagiu, enviando um
fax para o senador informando que já tinha sido namorado de Adriana Barreto em
1991. E distribuiu o fax na Assembléia Legislativa e Câmara Federal. Tales
Faria, colunista da ‘Isto É’, publicou uma nota dando conta de que ‘ACM não
mostrava o fax a ninguém’. Ele não retrucou.
Nessa época, final de
2000, o senador já se dava ao luxo de jantar a luz de velas na casa do
desembargador Amadiz Barreto, acompanhado da filha e dos pais dela. Quando
estourou a crise no Congresso Nacional com a revelação da gravação das fitas em
fevereiro de 2001, ACM se refugiou no Kingskey, em Miami, acompanhado da amiga.
O pontapé inicial para a crise envolvendo o painel foi dado por ACM: ele foi
até o Ministério Público Federal e fez várias denúncias contra Fernando
Henrique Cardoso e deixou escapar a história da fraude no painel.
Seu retorno ao Brasil
após o Carnaval, já rompido com FHC - que exonerou os ministros Waldeck Ornelas
e Fernando Tourinho, ambos indicados por ele - teve a solidariedade constante
da amiga Adriana na capital federal. Ela já se hospedava nesta ocasião, sem
nenhum constrangimento, na casa da presidência do Senado.
A renúncia de ACM,
após comprovada sua participação na fraude do painel eletrônico, em maio de 2001,
também transcorreu com a inseparável presença da amiga. E se aquele ano era
muito ruim para o senador, que ficou sem mandato, até então tudo continuava
muito bem no relacionamento adúltero com a amante.
Mas o contato direto
e constante acabou desgastando a relação. Nos meses de novembro e dezembro
daquele ano, dois ‘terremotos’ abalaram a já tumultuada vida do senador. O
primeiro fato negativo aconteceu no dia 3 de dezembro, quando seu candidato à
presidência do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Amadiz Barreto, foi
derrotado por Carlos Alberto Dultra Cintra, por 18 votos a 10. Quem lhe deu a
notícia foi o próprio Amadiz. A filha Adriana pegou o celular e ligou para ACM:
‘Bem, fale aqui com ele’, disse, entregando o celular ao pai. A TARDE registrou
o fato na época, mas sem citar o interlocutor.
O outro ‘terremoto’
não imaginava ACM que ainda estava por vir. No dia 18 de novembro, ou seja,
duas semanas antes das eleições para o Tribunal de Justiça, Adriana saiu do Spa
Busca Vida, no litoral norte da Bahia, decidida a ir morar com o advogado
Plácido Faria, que conheceu durante os 15 dias em que ambos ficaram lá perdendo
alguns quilos. ‘Saímos de lá e fomos para São Paulo no dia 19. Eu tinha que
fazer uma sustentação oral no processo de um cliente. E foi marcante. A minha
performance foi perfeita e o juiz deu a sentença favorável na hora a nosso
favor. Foi inédito na minha carreira. Adriana vibrou’, disse Plácido ao Jornal
A TARDE.
Os dois ficaram
quatro dias hospedados no hotel Ceasar Tower, na Rua Augusta, centro de São
Paulo. Plácido era casado com Márcia Maria Gonçalves Reis, analista do Tribunal
Regional do Trabalho. A ex-mulher descobriu o caso quando ele ainda estava
hospedado no hotel.
Quando Plácido
retornou a Salvador, encontrou as malas prontas na porta do seu apartamento, no
Caminho das Árvores. Ele e Adriana foram morar num flat em Ondina.
Conseguiram esconder
o relacionamento nos dias que antecederam a eleição no Tribunal de Justiça, mas
a ex-mulher de Plácido acabou espalhando pela cidade que o marido a deixou
‘pela amante de ACM’. Adriana decidiu então contar logo tudo para o ex-amigo. A
partir de meado de dezembro de 2001, a vida de Plácido e Adriana começou a se transformar
num verdadeiro inferno, mas isso já é uma outra história que a revista ‘Veja’
já contou muito bem.
Fonte: Textos
redigidos com fundamento em reportagens
da Revista Veja e Jornal A Tarde,
edições do período acima mencionado, no auge dos acontecimentos.

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