sábado, 9 de março de 2013

Alegando que este artigo/denúncia precisava de um direito de resposta do Bradesco, o jornal A Tarde recusou a publicação  na minha coluna quinzenal.
O editor considerou a possibilidade de ser publicado posteriormente, com defesa do Bradesco.

“Saúde Bradesco, preferencial, individual”

Ao marcar consulta, o sorriso da recepcionista vai minguando – dá para adivinhar até pelo telefone – e, com a última palavra, termina com frequência no já esperado “Não atendemos”. 
De preferencial meu plano nada tem. Preferencial é palavra oca, sem sentido. Assinei em 1997 um contrato para o sossego de meus velhos dias. Estes já chegaram, mas de sossego nada. 
Tal um carro velho cujo motor apresenta defeitos, especialmente do lado do escape, resolvi enfrentar o problema comum à maioria dos homens. 
A primeira consulta foi no Hospital Espanhol em 30 de julho de 2012. O primeiro comprimido de Casodex foi engolido em 22 de fevereiro de 2013. Sete meses gastos antes de iniciar o tratamento! Durante sete meses fui jogado de consultório em clínica, de hospital em laboratório, desde Nazaré - o Hospital Santa Paciência manda “o material” ao laboratório Álvaro em Cascavel/Paraná, laboratório este que costuma perder as amostras ou devolver os resultados pela metade - até São Marcos, passando pela Barra, Campo Grande, Itaigara e novamente Nazaré, Barra etc. 
Não tendo carro, fui sacudido por mil ônibus, gastei fortunas em taxi, esperei horas em salas mais gélidas que necrotério, lendo o equivalente ao acervo da Biblioteca Central. Enfermeiras memorizaram meu nome completo, me oferecendo até cafezinho. 
Entretanto o câncer, já que é disso de que se trata, ignorou burocracias, domingos e feriados, avançando sem atropelo sua nefasta tarefa. 
Quem freqüenta hospitais não o faz por divertimento, a não ser hipocondríaco. É fragilizado não só física, mas também psicologicamente. Submetido a um verdadeiro calvário, entrará forçosamente em estado depressivo. 
Acrescentando que pago R$886,47 mensais, nem por isso os R$476,00 do tal Casodex, parte do tratamento, me são reembolsados pelo plano de saúde Bradesco. 
Em compensação a mesma instituição patrocina grandes eventos, mesmo que algum venha, por mera rajada de vento, a matar um jovem e levar outros 20 ao hospital. 
Não seria mais proveitoso investir “preferencialmente” no atendimento ao segurado?

dimitri ganzelevitch
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